Capítulo 24
Nossa busca da verdade
O Centro Jerusalém da BYU de Estudos do Oriente Próximo abriu as portas para 80 estudantes no dia 8 de março de 1987. Naquela manhã, três vans e dois ônibus chegaram ao Kibbutz Ramat Rahel, a comunidade no extremo sudeste de Jerusalém onde os estudantes estrangeiros da universidade haviam morado e estudado nos últimos sete anos. Ansiosos a fim de se mudarem para o novo centro, os alunos alegremente levaram seus pertences e todos os equipamentos da escola para os veículos. Quando chegaram à sua nova casa, formaram uma corrente humana e começaram a transportar livros, caixas e malas pelas escadas que subiam o monte Scopus.
David Galbraith, diretor do programa de estudos no exterior, observava com um sorriso. A equipe da escola trabalhou incansavelmente para deixar o prédio pronto embora algumas partes ainda estivessem inacabadas. A equipe instalou lavadoras e secadoras, fez a designação de quartos e comprou suprimentos. Por algum motivo, eles haviam se esquecido de comprar toalhas e papel higiênico para o centro, mas os suprimentos já estavam vindo de Tel Aviv.
Dois anos antes, quando o presidente da BYU, Jeffrey R. Holland, foi a Jerusalém com um acordo de não proselitismo, ele causou uma boa impressão. No entanto, os rabinos ortodoxos estavam céticos com relação ao acordo. Continuavam fazendo manifestações no canteiro de obras, do lado de fora do gabinete do prefeito e em frente à casa de David.
Na esperança de gerar boa vontade, a Igreja contratou uma das maiores empresas de relações públicas de Israel, que colocou anúncios informativos em jornais e na televisão. Vários judeus que eram amigos da Igreja também escreveram cartas para políticos israelenses, atestando a honestidade dos santos.
Até recentemente, o inspetor municipal da cidade insistia que ninguém poderia ocupar o prédio antes de ser concluído. David e sua equipe administrativa, no entanto, receberam permissão a fim de se mudar para a seção concluída do centro: os quatro níveis inferiores que compunham os alojamentos e algumas salas de aula. Quando o inspetor municipal soube que vários departamentos da cidade haviam concedido a permissão, surpreendeu-se.
Depois que os alunos se mudaram, David os reuniu em uma grande sala de aula para uma reunião de três horas com orientações sobre como cuidar do edifício. O dia transcorreu de maneira pacífica, sem protestos daqueles que se opunham à construção do centro. Da escola, os estudantes podiam desfrutar de uma vista impressionante da Cidade Velha de Jerusalém ao pôr do sol. Era um belo cenário para eles aprenderem mais sobre a antiga cidade e as pessoas de fé que viveram lá.
“Finalmente estamos em nosso novo prédio”, escreveu David ao presidente Holland mais tarde naquele dia.
“Durante todos esses meses, trabalhamos em um edifício de cimento e pedra”, escreveu ele. “Os estudantes sopraram nele o fôlego da vida, e aqueles corredores de pedra fria e salas sem vida agora têm um ar de felicidade.”
Pouco tempo depois que Ezra Taft Benson se tornou presidente da Igreja, ele deu ao élder Russell M. Nelson uma nova designação. “Você será responsável por todos os assuntos da Igreja na Europa e na África”, disse ele, “com a incumbência especial de abrir os países do leste europeu para o evangelho”.
O élder Nelson ficou surpreso. “Sou um cirurgião cardíaco”, pensou. “O que sei sobre abrir os países para o evangelho?” Com poucas exceções, a Igreja não havia enviado missionários para a Europa Central e Oriental desde a época em que a região passou a estar sob a influência da União Soviética, após a Segunda Guerra Mundial. “Será que a tarefa não deveria ser entregue a alguém mais qualificado em diplomacia?”, ele se perguntou. “Por que não enviar um advogado, como o élder Dallin H. Oaks?”
O élder Nelson guardou seus pensamentos só para si e aceitou a designação.
Pouco tempo depois, as relações diplomáticas entre os Estados Unidos e a União Soviética começaram a melhorar. Em outubro de 1986, Konstantin Kharchev, presidente do Conselho de Assuntos Religiosos da União Soviética, reuniu-se com representantes da Igreja em Washington, D.C. Ele estava ansioso para que eles compreendessem que existia liberdade religiosa na União Soviética. Depois de saber da reunião, o élder Nelson recomendou que a Igreja enviasse duas autoridades gerais para se reunir com Kharchev e continuar a conversa. A Primeira Presidência o escolheu para ir, com o élder Hans B. Ringger, dos setenta.
Na manhã de 10 de junho de 1987, o élder Nelson e o élder Ringger telefonaram para o escritório de Kharchev em Moscou. Kharchev estava se preparando para deixar a cidade a fim de tratar de outros assuntos e não tinha muito tempo para conversar.
“Só queremos lhe fazer uma pergunta”, disse o élder Nelson. “O que precisaríamos fazer para que a igreja que representamos se estabeleça na Rússia?”
Kharchev explicou rapidamente que uma igreja poderia ser registrada em um distrito ou uma cidade quando tivesse 20 membros adultos que morassem lá.
O élder Nelson perguntou se a Igreja poderia abrir um centro de visitantes ou uma sala de leitura na União Soviética — um lugar onde as pessoas pudessem ir voluntariamente para aprender sobre os ensinamentos da Igreja.
“Não”, respondeu o presidente do conselho.
“Estamos diante do dilema do ovo e da galinha”, disse o élder Nelson. “Você diz que não poderemos ser reconhecidos até termos membros, mas vai ser difícil ter membros se não pudermos ter uma sala de leitura ou um centro de visitantes.”
“Isso é problema seu”, disse Kharchev. Ele lhes deu seu telefone e se ofereceu para se encontrar com eles novamente. Nesse meio tempo, eles poderiam falar com seus dois assistentes. “Tenham um bom dia!”, disse ele.
Os assistentes passaram mais informações ao élder Nelson e ao élder Ringger. Eles explicaram que, na União Soviética, os cidadãos tinham liberdade de consciência e podiam praticar sua religião abertamente. No entanto, os missionários não tinham permissão para fazer proselitismo no país, e o governo regulamentava a importação de literatura religiosa. As pessoas podiam realizar cultos religiosos em suas casas, convidar outras pessoas para participarem e compartilhar suas crenças com quem manifestasse interesse.
Vários locais de adoração funcionavam na cidade, e os assistentes providenciaram para que o élder Nelson e o élder Ringger se reunissem com líderes das congregações locais de ortodoxos russos, adventistas do sétimo dia, cristãos evangélicos e judeus. Enquanto percorriam a cidade, encontrando-se com outras pessoas de fé, o élder Nelson e o élder Ringger ficaram surpresos com a diversidade religiosa que viram em um país oficialmente ateu.
Ainda assim, quando o élder Nelson e o élder Ringger pensavam sobre os requisitos para estabelecer uma igreja na União Soviética, a tarefa deles parecia intransponível. Sem missionários ou uma sala de leitura, como eles poderiam atingir o número de 20 pessoas necessárias para receber o reconhecimento da Igreja?
Em seu último dia em Moscou, o élder Nelson não conseguia dormir. Ele se levantou e foi para a Praça Vermelha, uma grande praça fora do Kremlin, a sede cercada de muros do governo soviético. A praça estava vazia, e ele pensou na multidão de milhares de pessoas que visitariam o local mais tarde naquele dia. Desde sua chegada à cidade, ele havia ficado comovido vendo as pessoas comuns. Ele queria se aproximar delas com amor e compartilhar o evangelho restaurado de Jesus Cristo com todos.
As perguntas “Quem sou?” e “Por que estou aqui?” não paravam de ecoar em sua mente. Ele sabia que era cirurgião, americano, marido, pai e avô. Mas ele tinha ido a Moscou como um apóstolo do Senhor. E, embora sua designação pudesse parecer muito difícil, especialmente agora que ele sabia como seria difícil estabelecer a Igreja na União Soviética, ele tinha esperança.
“Os apóstolos conhecem sua comissão”, pensou. O Salvador lhes ordenara que fossem a todas as partes do mundo e pregassem a toda tribo, nação, língua e povo. A mensagem do evangelho era para todos os filhos de Deus.
No relatório da viagem, o élder Nelson expressou sua fé no poder do Senhor para abrir as portas de lugares como a Europa Central e Oriental. “Juntos, podemos começar, mesmo dando pequenos passos, a fazer a vontade de nosso Pai Celestial, que ama todos os Seus filhos”, escreveu. “O destino e a salvação das almas de três quartos de um bilhão de pessoas dependem de nossa ação.”
Em 6 de agosto de 1987, o apóstolo Dallin H. Oaks tinha uma expressão sombria quando subiu ao púlpito diante de um grande público na Universidade Brigham Young. Dois anos haviam se passado desde os atentados a bomba em Salt Lake City que mataram dois santos dos últimos dias. Nesse período, o negociante de documentos raros, Mark Hofmann, foi julgado e condenado pelos assassinatos. Descobriu-se também que Mark havia falsificado muitos dos documentos que vendeu e negociou com a Igreja, incluindo vários que tinham por objetivo minar a fé na história sagrada da Igreja.
Durante esses mesmos dois anos, os acadêmicos da BYU fizeram muito para fortalecer a fé. O BYU Studies e o centro de estudos religiosos da universidade publicaram novos livros e artigos importantes sobre Joseph Smith e suas traduções. A Fundação para Pesquisa Antiga e Estudos Mórmons também começou a publicar os trabalhos coletados de Hugh Nibley, que tinha feito mais estudos do que qualquer outra pessoa para apoiar o Livro de Mórmon e a Pérola de Grande Valor. E a BYU havia feito um acordo com uma proeminente editora internacional para publicar a Encyclopedia of Mormonism, que contém artigos sobre a história, a doutrina e a prática da Igreja.
Ainda assim, muitos santos se esforçaram para compreender as fraudes de Mark Hofmann, motivando a BYU a organizar uma conferência acadêmica sobre a história da Igreja e o caso Hofmann. Na ocasião, o élder Oaks foi à conferência para falar sobre o papel da Igreja nos eventos que envolveram a tragédia.
Como o público sabia, Mark estava cumprindo pena perpétua na prisão. Em janeiro, ele confessou ter fabricado três bombas, incluindo uma que o feriu acidentalmente. A história que ele contou aos investigadores era complexa e trágica. Embora tenha sido membro da Igreja durante a vida toda, ele perdeu a fé em Deus quando era rapaz. Com o tempo, ele se tornou um hábil falsificador e usou seu conhecimento da história da Igreja para fabricar documentos. Ele admitiu mais tarde que o objetivo de fazer essas falsificações não era apenas ganhar dinheiro, mas também constranger e desacreditar a Igreja. Ele havia assassinado duas pessoas em uma tentativa calculada de ocultar seu golpe.
No início de seu discurso, o élder Oaks comentou que os assassinatos haviam recebido grande atenção da mídia. Alguns comentaristas criticaram o presidente Gordon B. Hinckley e outros líderes da Igreja por terem adquirido documentos fraudulentos de Mark, argumentando que líderes verdadeiramente inspirados não teriam sido enganados pelas falsificações. Outras pessoas tinham acusado os líderes de serem sigilosos em relação a questões históricas embora a Igreja tivesse publicado os documentos mais significativos de Hofmann e permitido que fossem estudados por especialistas.
O élder Oaks observou que muitas pessoas, inclusive acadêmicos e especialistas em falsificação reconhecidos nacionalmente, aceitaram os documentos como genuínos. Ele também descreveu a atitude de confiança que prevalecia entre os líderes da Igreja.
“Para exercer seus ministérios pessoais, os líderes da Igreja não podem suspeitar de cada uma das centenas de pessoas que encontram a cada ano e questioná-las”, disse ele. “É melhor para um líder da Igreja se decepcionar ocasionalmente do que estar sempre desconfiado.” Se eles falhassem na detecção de alguns enganadores, esse seria o preço necessário para aconselhar e confortar melhor os honestos de coração.
Mesmo antes da organização da Igreja, o Senhor havia advertido Joseph Smith de que “nem sempre podes discernir os iníquos dos justos”. Homens como Mark Hofmann provaram que Deus nem sempre protege os membros e os líderes da Igreja de pessoas enganosas.
No final de seu discurso, o élder Oaks manifestou a esperança de que todos pudessem aprender com essa terrível experiência. “Quando se trata de ingenuidade em face da malevolência”, ele reconheceu, “há culpa suficiente para todos”.
“Todos nós devemos buscar a verdade com as ferramentas de estudos honestos e objetivos e uma fé religiosa sincera e respeitosa”, concluiu. “Todos nós precisamos ser mais cautelosos.”
Em 30 de abril de 1988, Isaac “Ike” Ferguson desembarcou do avião e sentiu o calor de N’Djamena, no Chade. Foi um lembrete imediato de que ele estava longe do clima fresco de primavera de sua casa em Bountiful, Utah. Ao seu redor, ele via pessoas com túnicas brancas e cabeça coberta. As areias do deserto se estendiam em todas as direções até o horizonte.
A pedido da Primeira Presidência, Ike foi até os limites do deserto do norte da África para acompanhar os projetos humanitários da Igreja. Durante várias gerações, a Igreja usou suas ofertas de jejum principalmente para ajudar os santos em dificuldades. No início da década de 1980, porém, a fome havia devastado a Etiópia, um país onde a Igreja não tinha presença oficial. As imagens de televisão de crianças famintas e campos de refugiados sobrecarregados comoveram pessoas do mundo todo, inclusive os santos. Em 27 de janeiro de 1985, a Igreja realizou um jejum humanitário especial nos Estados Unidos e no Canadá, que arrecadou US$ 6 milhões em ofertas de jejum para ajudar a África.
Poucos meses depois, o élder M. Russell Ballard, um dos presidentes do primeiro quórum dos setenta, viajou para a Etiópia a fim de identificar organizações humanitárias que poderiam ajudar a Igreja a fazer o melhor possível. Ike, que tinha doutorado e experiência profissional em saúde pública, foi então contratado para gerenciar as doações humanitárias em um escritório em Utah. Em seu primeiro dia, ele recebeu um computador, um telefone e autorização para distribuir milhões de dólares em ajuda de jejum para a Etiópia.
Com base no trabalho do élder Ballard, Ike entrou em contato com outras organizações de ajuda internacional para pedir conselhos sobre a melhor forma de usar as doações. Depois disso, fez grandes doações a organizações de auxílio que trabalham na Etiópia e em países vizinhos com problemas semelhantes. Dez meses após o jejum inicial, a Igreja realizou um segundo jejum para combater a fome.
As contribuições dos santos na Etiópia se mostraram tão úteis que os serviços de bem-estar da Igreja começaram a fazer parcerias com agências de assistência em outras partes do mundo. Em pouco tempo, Ike estava ajudando a organizar uma feira de saúde no Caribe, enviando equipamentos médicos para ajudar crianças com paralisia cerebral na Hungria e entregando vacinas na Bolívia.
Após a chegada em N’Djamena, Ike passou vários dias visitando locais humanitários no Chade e no Níger. Ele viajou para o vale Majia, em Níger, um local para o qual a Igreja havia doado centenas de milhares de dólares para um projeto de reflorestamento. Do alto, ele podia ver fileiras de árvores resistentes à seca formando uma “cerca viva” entre as ricas terras agrícolas do vale e o deserto que estava próximo. O avião aterrissou, e representantes de um dos parceiros humanitários da Igreja o levaram de carro pelas áreas reflorestadas.
Ike aprendeu que as árvores impediam a erosão do solo causada pelos ventos e forneciam forragem para ovelhas, cabras e gado. Também eram uma fonte de combustível de longo prazo para as pessoas que moravam nas proximidades. Os agricultores da área aumentaram sua produção agrícola em até 30 por cento desde o início do projeto, preservando muitas vidas da devastação do deserto.
Alguns dias depois, Ike foi para Gana, onde a Igreja tinha na época uma missão e dezenas de ramos. Lá, ele se reuniu com uma organização parceira, a Africare, para fazer uma consulta sobre uma fazenda de bem-estar da Igreja de 40 acres em Abomosu, uma cidade que ficava a cerca de 130 quilômetros a noroeste de Acra.
A fazenda foi criada em 1985, depois que uma seca severa esgotou os suprimentos de alimentos em todo o país. Assim como as fazendas de bem-estar da Igreja nos Estados Unidos, ela fornecia alimentos para pessoas necessitadas e, ao mesmo tempo, promovia a independência e a autossuficiência. Os santos locais administravam a fazenda com alguma assistência da Missão Gana Acra. No início, todos os trabalhadores eram voluntários, mas agora a fazenda pagava os trabalhadores, sendo que a maioria deles era membro da Igreja.
Após três temporadas de cultivo, a fazenda teve sucesso moderado na produção de milho, mandioca, banana-da-terra e outras culturas para pessoas carentes. Mas os benefícios que proporcionava ainda não compensavam o alto custo de manutenção.
Os consultores da Africare disseram a Ike que acreditavam que a fazenda serviria melhor à comunidade local se a Igreja permitisse que as pessoas de Abomosu transformassem a fazenda em um empreendimento cooperativo. Os agricultores locais, usando técnicas tradicionais de cultivo, poderiam trabalhar em conjunto a fim de fornecer mais alimentos para a comunidade. A Igreja ainda daria algum apoio financeiro à fazenda sem assumir toda a responsabilidade pelo sucesso.
Antes de deixar Gana, Ike e os consultores apresentaram essa ideia a cerca de 150 membros da comunidade de Abomosu, incluindo o líder da tribo local. O plano foi bem recebido, e muitos agricultores estavam ansiosos para participar da cooperativa.
Naquele mesmo mês de abril, Manuel Navarro procurou seu pai com uma notícia desanimadora. Nos últimos meses, ele estivera em Lima, no Peru, estudando muito para entrar em uma universidade de prestígio na cidade. No entanto, apesar de seus esforços, ele não conseguiu ser admitido na universidade. Se ele quisesse tentar entrar novamente, precisaria estudar por mais seis meses.
“Manuel”, disse o pai dele, “você quer continuar se preparando para a universidade ou quer se preparar para uma missão?”
Manuel sabia que o profeta havia pedido a todos os rapazes dignos e capazes da Igreja que servissem missão. E sua bênção patriarcal falava do serviço missionário. No entanto, ele havia planejado ir para a missão depois de se matricular na universidade. Ele acreditava que seria mais fácil retornar à universidade após a missão se pudesse fazer a matrícula antes de partir. Mas agora ele não sabia o que fazer. O pai dele disse que ele precisava de um tempo para decidir.
Imediatamente, Manuel leu o Livro de Mórmon e orou. Quando fez isso, sentiu o Espírito guiando sua decisão. No dia seguinte, ele já tinha uma resposta. Ele sabia que precisava servir missão.
“Está bem”, disse seu pai. “Vamos lhe ajudar.”
Uma das primeiras coisas que Manuel fez foi procurar um emprego. Ele achava que trabalharia em um banco próximo, já que seu pai conhecia alguns dos funcionários de lá. Mas, em vez disso, seu pai o levou ao centro da cidade para o local de construção da primeira capela do ramo. Ele perguntou ao supervisor se havia uma vaga para Manuel na equipe de construção. “Sem problemas”, disse o supervisor. “Vamos colocá-lo para trabalhar.”
Manuel entrou para a equipe em junho e, sempre que recebia o pagamento, o funcionário que dava o cheque o lembrava que ele deveria usá-lo em sua missão. A mãe de Manuel também o ajudou a separar a maior parte do dinheiro para o fundo missionário e o dízimo.
As missões eram caras, e a situação econômica do Peru dificultava para muitos santos financiarem suas missões integralmente. Durante anos, todos os missionários de tempo integral dependiam de si mesmos, de sua família, de suas congregações e até mesmo da bondade de estranhos para financiar sua missão. Depois que o presidente Kimball pediu a todos os rapazes elegíveis que servissem, a Igreja convidou seus membros a contribuírem para um fundo missionário geral para aqueles que precisavam de ajuda financeira.
Esperava-se que os fundos locais cobrissem pelo menos um terço dos custos da missão. Se os missionários não pudessem pagar o restante, poderiam recorrer ao fundo geral. No Peru e em outros países da América do Sul, os líderes da Igreja também criaram um sistema em que os membros locais forneciam aos missionários uma refeição por dia, ajudando-os a economizar dinheiro. Manuel se encarregou de pagar metade de sua missão, e seus pais arcariam com o restante.
Depois de trabalhar por cerca de seis meses, Manuel recebeu seu chamado para a missão. O pai dele disse que eles poderiam abri-lo imediatamente ou esperar até o domingo e ler na reunião sacramental. Manuel não conseguiria esperar tanto tempo, mas esperaria até sua mãe sair do trabalho naquela noite.
Quando ela finalmente chegou em casa, Manuel abriu o envelope e viu imediatamente a assinatura do presidente Ezra Taft Benson. Ele então começou a ler o restante do chamado, com o coração batendo forte a cada palavra. Quando viu que serviria na Missão Peru Lima Norte, ficou radiante de alegria.
Ele sempre teve o desejo de servir missão em seu país de origem.
Durante a última sessão da Conferência Geral de Abril de 1989, o presidente Ezra Taft Benson se sentou perto do púlpito no Tabernáculo de Salt Lake, apreciando as mensagens inspiradas dos oradores. Mas, quando chegou a hora de fazer suas próprias observações, ele sentiu que não tinha forças suficientes para falar. Ele pediu a seu segundo conselheiro, Thomas S. Monson, que lesse o que havia preparado para a ocasião.
Nos últimos dois anos, o profeta falou diretamente a diferentes grupos da Igreja: moças e rapazes, mães e pais, mulheres adultas solteiras e homens adultos solteiros. Agora ele queria falar com as crianças.
“Como amo vocês!”, disse ao começar seu discurso. “Como nosso Pai Celestial ama vocês!”
Naquela época, mais de 1,2 milhão de crianças pertenciam à organização da Primária da Igreja. Em 1988, a presidente geral da Primária, Dwan J. Young, e sua junta escolheram uma frase do Livro de Mórmon, “Achegar-se a Cristo”, como tema do ano. A presidente Young e sua junta também convidaram as crianças a aprender sobre o Livro de Mórmon.
O presidente Benson ficou animado porque crianças de todo o mundo aceitaram o convite. Nas noites no lar e na Primária, eles cantavam sobre o Livro de Mórmon, encenavam suas histórias e brincavam com jogos que ensinavam suas mensagens. Algumas crianças estavam até ganhando dinheiro para comprar exemplares do Livro de Mórmon que seriam distribuídos em todo o mundo.
Em sua mensagem, o presidente Benson exortou as crianças a orarem ao Pai Celestial todos os dias. “Agradeçam a Ele por ter enviado nosso irmão mais velho, Jesus Cristo, ao mundo. Ele tornou possível que retornássemos a nosso lar celestial.”
O presidente Benson falou muitas vezes durante seu ministério sobre a Expiação de Jesus Cristo. Nos últimos anos, ele também recorreu ao Livro de Mórmon para enfatizar aspectos da missão de Cristo familiares a outros cristãos. Um novo hinário da Primária, que logo estaria disponível para os santos, reforçou essas mensagens. O livro Músicas para Crianças tinha uma nova seção intitulada “O Salvador” e incluía muito mais canções sobre Jesus do que seu antecessor, Sing with Me.
Em várias ocasiões, o presidente Benson convidou os santos a se converterem a Cristo e a recorrerem à Sua graça salvadora. “Por Sua graça”, o profeta ensinou, “podemos receber a força que necessitamos para fazer as obras necessárias que de outro modo não poderíamos fazer sozinhos”.
Ao mesmo tempo, ele encorajava os santos a viverem em retidão. Em seu discurso para as crianças, ele as incentivou a terem a coragem de defender suas crenças. Ele também as advertiu de que Satanás procuraria tentá-las.
“Ele conquistou o coração de homens e mulheres perversos”, disse ele, “que querem que vocês participem de coisas ruins, como pornografia, drogas, obscenidades e imoralidade”. Ele exortou as crianças a evitarem vídeos, filmes e programas de televisão que não fossem bons.
Quase no final de seu discurso, o presidente Benson procurou consolar as crianças que viviam com medo. Nos últimos anos, os líderes da Igreja se manifestaram mais contra o abuso e a negligência de crianças, e a Igreja publicou diretrizes para ajudar os líderes locais a ajudar as vítimas.
“Mesmo quando parece que ninguém mais se importa, seu Pai Celestial Se importa”, disse o profeta. “Ele quer que você esteja protegido e seguro. Se não estiver, converse com alguém que possa ajudar você: seus pais, um professor, seu bispo ou um amigo.”
Depois que o presidente Monson se sentou, o público assistiu a um vídeo gravado previamente do presidente Benson cantando para um grupo de crianças reunidas em volta dele. Em seguida, o Coro do Tabernáculo cantou “Sou um Filho de Deus” e uma oração encerrou a conferência.